Igreja no MundoPadre Joaquim Jocélio

Resumo da Exortação Apostólica Dilexi Te do Papa Leão XIV sobre o amor para com os pobres

Podcast Outro Papo de Igreja, do Serviço Teológico Pastoral

“Eu te amei”, título da exortação, é um trecho do livro do Apocalipse (3,9), palavras dirigidas por Deus a uma comunidade sem muita relevância social. O texto está em comunhão com a última encíclica do papa Francisco, a Dilexit nos sobre o amor do Coração de Jesus. Esta mostra como Jesus se identifica com os últimos e contemplar esse seu amor nos leva a nos comprometer com o sofrimento e as necessidades dos outros. Leão XIV afirma que Francisco preparava um texto sobre o cuidado da Igreja pelos pobres e com os pobres. Ele recebeu essa herança e ficou feliz em assumi-la como sua, acrescentando algumas reflexões. Deseja apresentar este caminho de santidade que mostra o quanto o amor de Cristo nos leva a tornar-nos próximos dos pobres. A presente exortação consta de cinco capítulos que apresentaremos suscintamente a seguir e, ao final, traremos pequenos destaques sobre seu conteúdo e importância para a atual caminhada da Igreja.

Capítulo I – Algumas palavras indispensáveis

O papa inicia recordando a cena da mulher que ungiu Jesus com um caro perfume (Mt 26,8-9.11). Aquele gesto foi um consolo. Ali se expressa a identificação de Jesus com os sofredores. Ao dizer que pobres sempre teriam, Jesus expressava também que a ele sempre teriam nos mais pequeninos e sofredores (Mt 25,40). Aqui, diz o papa, “não estamos no horizonte da beneficência, mas no da Revelação” (5).

Recordando o exemplo de São Francisco, o papa lembra como, a partir dos pobres, ele realizou um grande renascimento evangélico na Igreja e sociedade de seu tempo. Por isso, afirma: “Estou convencido de que a opção preferencial pelos pobres gera uma renovação extraordinária tanto na Igreja como na sociedade, quando somos capazes de nos libertar da autorreferencialidade e conseguimos ouvir o seu clamor” (7). Ele afirma que o texto bíblico da revelação de Deus a Moisés junto à sarça ardente (Ex 3,7-8.10) deve ser tomado como ponto de partida nessa reflexão: Deus que ouve o clamor de seu povo e desce para libertá-lo. “Ao ouvir o clamor do pobre, somos chamados a identificar-nos com o coração de Deus” (8). A condição dos pobres é um grito que interpela a todos nós e nossos sistemas, sobretudo a Igreja. No rosto ferido dos pobres encontramos Cristo.

O papa lista algumas das várias formas de pobreza: falta de meios de subsistência material, marginalização social, pobreza moral e espiritual, cultural, falta de direitos, lugar e liberdade etc. Ainda precisamos avançar muito quanto aos direitos dos pobres, pois as atuais linhas políticas privilegiam muito mais padrões de vida marcados pelas desigualdades. É preciso uma mudança de mentalidade, pois não é possível manter o desejo de uma existência centrada na acumulação de riquezas a todo custo. Enquanto certas elites vivem em bolhas de luxo longe dos problemas do mundo, milhões de pessoas morrem de fome e vivem em condições indignas.

É preciso vencer certos preconceitos ideológicos. “Os pobres não existem por acaso ou por um cego e amargo destino” (14), nem podemos cair na ideia falsa da meritocracia. É sinal da mentalidade mundana quando o exercício da caridade é ridicularizado. Precisamos ler novamente o Evangelho. “Se não quisermos sair da corrente viva da Igreja que brota do Evangelho e fecunda cada momento histórico, não podemos esquecer os pobres” (15).

Capítulo II – Deus escolhe os pobres

Deus mesmo se fez pobre. Aqui se entende a expressão nascida na Conferência de Puebla e assumida posteriormente pelo Magistério da Igreja: opção preferencial pelos pobres. O que não indica exclusivismo nem discriminação, mas sublinha o agir de Deus em defesa dos discriminados e oprimidos. Nesse sentido, em toda a Escritura encontramos a imagem de Deus como libertador e amigo dos pobres, principalmente nos profetas que denunciavam que é incompatível o culto a Deus e as injustiças.

“Toda a história do Antigo Testamento sobre a predileção de Deus pelos pobres e o desejo divino de ouvir o seu clamor – que evoquei brevemente – encontra em Jesus de Nazaré a sua plena realização” (18). Em toda a vida de Jesus, do nascimento a morte, se manifestou o privilégio dos pobres. “Ele apresenta-se ao mundo não só como Messias pobre, mas também como Messias dos pobres e para os pobres” (19). Jesus foi carpinteiro, viveu como pobre, assumiu na sinagoga de Nazaré a missão de anunciar a Boa Nova aos pobres (Lc 4,18-19); anunciou o Reino curando e acolhendo os discriminados; combateu a ideia que suas doenças eram punição de Deus.

“A Igreja, se deseja ser de Cristo, deve ser Igreja das Bem-aventuranças, Igreja que dá vez aos pequeninos e caminha pobre com os pobres” (21). O papa recolhe algumas passagens do Antigo e do Novo Testamento para mostrar o cuidado com os pobres. Destaque recebe a vida das primeiras comunidades cristãs que valorizavam a partilha e a solidariedade. Paulo chegou a organizar uma coleta para socorrer os pobres. Esta é uma mensagem tão clara que nenhuma interpretação na Igreja deveria enfraquecê-la.

Capítulo III – Uma Igreja para os pobres

O papa Leão XIV recorda que, com poucos dias de eleito, Francisco disse que desejava uma Igreja pobre e para os pobres apontando a identificação da Igreja com os últimos como fez Jesus. Leão afirma que “desde os primeiros séculos, os Padres da Igreja reconheceram no pobre um acesso privilegiado a Deus, um modo especial para O encontrar” (39). Não se tratava de simples virtude moral, mas de expressão concreta da fé. O pobre não era apêndice, mas parte essencial do corpo de Cristo. Santo Inácio de Antioquia, mesmo a caminho do martírio, recordava o cuidado com os pobres. Policarpo, bispo de Esmirna, sempre ensinava isso a seus presbíteros. São Justino, ao descrever a reunião dos cristãos, mostrou como não se pode separar o culto a Deus da atenção aos pobres. São João Crisóstomo ensinou que não é possível adornar o altar com vasos de ouro se deixar Cristo nu nos pobres, pois ele não precisa de vasos de ouro, mas de almas de ouro; devemos honrar Cristo como ele quer ser honrado, isto é, nos pobres. Santo Ambrósio insistia que aquilo que se acumula é roubo aos pobres, pois alguém se apossa sozinho daquilo que é comum. Santo Agostinho, discípulo de Ambrósio, ensinava que a comunhão eclesial se dava também na comunhão de bens e que os pobres são presença sacramental do Senhor.

“A teologia patrística foi prática, apontando para uma Igreja pobre e para os pobres, recordando que o Evangelho só é bem anunciado quando leva a tocar a carne dos últimos, e alertando que o rigor doutrinal sem misericórdia é palavra vazia” (48). São Cipriano, durante uma peste na cidade de Cartago, ensinava que aquela doença punha à prova a justiça de cada um, isto é, como tratariam os doentes. São João de Deus e São Camilo de Léllis criaram, cada um a seu tempo, hospitais para atender aos mais pobres. O mesmo fizeram as Filhas da Caridade, as Irmãs Hospitaleiras, as Pequenas Servas da Divina Providência. “No gesto de limpar uma ferida, a Igreja proclama que o Reino de Deus começa entre os mais vulneráveis” (52). Desde o início, a vida monástica foi testemunho não só de desprezo a riqueza, mas também de solidariedade e de cuidado com os pobres. São Basílio ensinava que hospitalidade e solidariedade eram próprias do monge. São Bento de Núrsia assumiu isso na regra de sua ordem que inspirou muitas outras. Os mosteiros eram lugares de acolhida, formação, cuidado onde os pobres tinham sua dignidade respeitada.

“Desde os tempos apostólicos, a Igreja viu na libertação dos oprimidos um sinal do Reino de Deus” (59). Assim, nos séculos XII e XIII, surgiram ordens como os Trinitários e os Mercedários que tinham a missão de libertar cristãos escravizados. “A caridade cristã, quando encarnada, torna-se libertadora. E a missão da Igreja, quando fiel ao seu Senhor, é sempre proclamar a libertação” (61). O papa lembra também a situação atual dos presídios e como eles são lugares da humanidade provada.

Na idade média, em contraste com tanta opulência, o Espírito suscitou o surgimento das ordens mendicantes, como Franciscanos, Dominicanos, Agostinianos e Carmelitas que representaram uma revolução evangélica. “O testemunho dos mendicantes desafiava tanto a opulência clerical quanto a frieza da sociedade urbana” (63). São Francisco foi uma grande referência nesse caminho de pobreza e dedicação aos pobres. Segui-o Santa Clara e muitos outros.

A Igreja também teve especial atenção a educação dos pobres. Várias congregações se dedicaram pelo mundo todo a essa missão. “A educação dos pobres, para a fé cristã, não é um favor, mas um dever. Os pequenos têm direito à sabedoria, como exigência básica do reconhecimento da dignidade humana. Ensinar-lhes é reconhecer o seu valor, dando-lhes instrumentos para transformar a sua realidade” (72).

Atenção igual mereceu o cuidado com os migrantes, que como todos, são filhos de Deus e tem impresso em si a imagem de Cristo. Como ensinou o papa Francisco, a relação com os migrantes deve se dar por quatro verbos principais: Acolher, proteger, promover e integrar.

É preciso, portanto, estar do lado dos últimos. Dois exemplos disso foi Madre Tereza de Calcutá e Santa Dulce dos pobres, mulheres que a partir da oração, gastaram-se inteiramente no serviço aos pobres e doentes. Elas e tantos outros nos ensinaram que “os mais pobres não são mero objeto da nossa compaixão, mas mestres do Evangelho. Não se trata de lhes ‘levar Deus’, mas de encontrá-Lo ali” (79).

O papa fala ainda sobre os movimentos populares, que apesar de serem visto por muitos com suspeita e serem perseguidos, lutam contra as causas estruturais da pobreza. Não fazem pelos pobres, mas com eles. Lutam por terra, teto e trabalho para todos. Eles fazem história.

Capítulo IV – Uma história que continua

As transformações tecnológica e social dos últimos séculos foram acompanhadas de movimentos juvenis, de mulheres, de trabalhadores que lutaram por seus direitos. A Doutrina Social da Igreja deu sua contribuição. E ela mesma tem uma raiz popular, a partir da ação de tantos cristãos envolvidos com os desafios de seu tempo. A encíclica Rerum Novarum do papa Leão XIII na defesa dos operários foi um verdadeiro marco.

“O Concílio Vaticano II representa uma etapa fundamental no discernimento eclesial sobre os pobres, à luz da Revelação” (84). Um mês antes de sua abertura, numa rádio mensagem, o papa João XXIII afirmou que “a Igreja apresenta-se como é e como quer ser, como Igreja de todos e particularmente Igreja dos pobres” (84). O cardeal Lercaro fez uma importante intervenção no Concílio em 1962, ao afirmar que o mistério de Cristo nos pobres era o único tema do Concílio. O Vaticano II então despertou “a necessidade de uma nova forma eclesial, mais simples e sóbria, que envolvesse todo o povo de Deus e a sua figura histórica. Uma Igreja mais parecida com o seu Senhor do que com os poderes mundanos” (84).

O papa Paulo VI seguiu nesta linha, afirmando que a Igreja pertence aos pobres por direito evangélico. A constituição Gaudium et Spes do Concílio reafirmou a pregação dos Padres da Igreja de que os bens são de uso comum e que a propriedade privada não é direito absoluto. Paulo VI reforçou isso na encíclica Populorum Progressio. O papa João Paulo II “reconheceu que a opção pelos pobres é uma ‘forma especial de primado na prática da caridade cristã, testemunhada por toda a Tradição da Igreja’” (87). O papa Bento XVI ensinou que a fome não depende apenas da escassez de recursos materiais, mas também da escassez de instituições econômicas capazes de garantir o acesso aos bens essenciais.

O papa Francisco recordou a contribuição do episcopado latino-americano com as conferências de Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida. “O martírio de São Oscar Romero, Arcebispo de San Salvador, foi ao mesmo tempo um testemunho e uma exortação viva para a Igreja. Ele sentia como próprio o drama da grande maioria dos seus fiéis, fazendo deles o centro da sua opção pastoral” (89). Leão mesmo viveu muito da experiência latino-americana nos anos que esteve no Peru. Por isso, retoma dois temas importantes do magistério episcopal deste continente.

O primeiro são as estruturas de pecado. A conferência de Medellín afirmou que “Cristo, nosso Salvador, não só amou aos pobres, mas também, ‘sendo rico se fez pobre’, viveu na pobreza, centralizando sua missão no anúncio da libertação aos pobres e fundou sua Igreja como sinal dessa pobreza entre os homens” (90). A Conferência de Puebla confirmou essa opção pelos pobres chamando as estruturas injustas de pecado social. Nesse sentido, precisamos denunciar a ditadura de uma economia que mata e as ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados. Muitos defendem uma organização da economia que exigem sacrifícios do povo que deve se contentar com “gotas” que cairão. Essas, como lembrou o papa Francisco, são estruturas de pecado. “Devemos empenhar-nos cada vez mais em resolver as causas estruturais da pobreza” (94). Leão XIV repete que “a falta de equidade ‘é a raiz dos males sociais’” (94). As ações da Igreja contra as estruturas injustas têm a ver com o Reino de Deus, pois à medida que Deus reinar entre nós, haverá justiça, fraternidade e paz para todos.

O segundo aspecto destacado pelo papa Leão do episcopado latino-americano são os pobres como sujeitos. Ele lembra que Aparecida, além de afirmar que a opção pelos pobres está implícita da fé cristológica, ainda retomou essa questão: os pobres tem muito a nos ensinar. Por isso, Leão XIV agradece a tantos que vivem como pobres entre os pobres e afirma: “torna-se clara a necessidade de ‘que todos nos deixemos evangelizar’ pelos pobres e reconheçamos ‘a misteriosa sabedoria que Deus nos quer comunicar através deles’” (102).

Capítulo V – Um permanente desafio

“O cuidado com os pobres faz parte da grande Tradição da Igreja, como um farol de luz que, a partir do Evangelho, iluminou os corações e os passos dos cristãos de todos os tempos” (103). Por isso, o amor pelos pobres é a garantia evangélica de nossa fidelidade ao coração de Deus. Toda a renovação da Igreja teve como suas prioridades a atenção pelos pobres. Eles são nossa família, são dos nossos. Recordando a reflexão do papa Francisco na Fratelli Tutti sobre o Bom Samaritano, o papa Leão lembra que somos ainda analfabetos no cuidado com os frágeis e vulneráveis. Questiona se ao vermos um irmão na rua o enxergamos como um incômodo, um obstáculo ou alguém com a mesma dignidade, um filho de Deus.

Leão afirma que os pobres são nossos mestres silenciosos, eles têm muito a nos ensinar. Insiste em lembrar que “para nós, cristãos, a questão dos pobres remete-nos à essência da nossa fé” (110) e que “os pobres ocupam um lugar central na Igreja, porque ‘deriva da nossa fé em Cristo, que se fez pobre e sempre se aproximou dos pobres e marginalizados’” (111). O papa denuncia também que certos grupos e movimentos na Igreja não apresentam preocupação com o bem comum. Ele lembra que a religião não está reservada ao ambiente privado e não é possível defender que “o nosso dever é rezar e ensinar a verdadeira doutrina” (114), desvinculando isso do compromisso com os pobres. Há quem defenda que os pobres são problema dos governos e que a preocupação deve ser em cuidar dos ricos e dos profissionais que são aqueles que podem resolver as coisas. O papa afirma que “é fácil perceber a mundanidade que se esconde por trás destas opiniões” (114). Por fim, o papa Leão XIV fala sobre a importância da esmola. Ele afirma que o mais importante é a busca de trabalho digno para todos e que a esmola não dispensa a luta pela justiça. A esmola não será a solução para a pobreza no mundo, mas é muito importante, pois nos leva a tocar a carne sofredora dos pobres. Ele conclui com essa motivação: “Quer através do vosso trabalho, quer através do vosso empenho em mudar as estruturas sociais injustas, quer através daquele gesto de ajuda simples, muito pessoal e próximo, será possível que aquele pobre sinta serem para ele as palavras de Jesus: ‘Eu te amei’ (Ap 3, 9)” (121).

Destaques e observações

Desde Leão XIII e sua encíclica Rerum Novarum (1891), a Doutrina Social da Igreja ganhou espaço próprio nos documentos pontifícios. São vários os temas sociais tratados. Contudo, é a Dilexi Te, escrita por Francisco e Leão XIV, o primeiro documento papal exclusivamente sobre os pobres. Isso é muito importante. Ela também fala sobre as raízes populares da Doutrina Social da Igreja, sua origem em cristãos leigos envolvidos com os desafios de seu tempo. A exortação também recolhe muito da tradição teológica latino-americana, explicitamente citada e apresenta no texto, principalmente as Conferências de Medellín, Puebla, Aparecida e o testemunho profético-martirial de São Romero. Além disso, lembrou das intuições durante o Concílio para uma Igreja dos pobres, citando o papa João XXIII e o cardeal Lercaro.

Ao recolher tantas referências bíblicas e, sobretudo, da história da Igreja sobre o cuidado com os pobres, a Dilexi Te busca mostrar que a centralidade dos pobres é parte da grande Tradição da Igreja, é questão dogmática, é ponto fundamental da fé. Destaque merece a visão dos Santos Padres de que os bens são para o uso comum e a propriedade privada não é direito absoluto. Cabe a nós lermos, estudarmos, divulgarmos e assumirmos as grandes intuições desse profético texto. Não podemos deixar ele cair no esquecimento. Afinal, o qunae ele faz é nos despertar para o coração da nossa fé, para o critério da nossa salvação, da nossa participação no Reino: o cuidado a Cristo nos pobres e sofredores: “Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino preparado para vós desde a fundação do mundo! Pois tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era estrangeiro, e me acolhestes; estava nu e me vestistes; doente, e me visitastes; na prisão, e viestes a mim” (Mt 25,34-36).

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